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Agronegócio

02/10/2023 07:11

Mandioca e fécula: produções crescem em ritmo acima da demanda

As produções de raiz de mandioca e de fécula devem crescer em 2023, em um contexto de demanda enfraquecida

As estimativas mais recentes do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontam que a produção brasileira de mandioca (de mesa e para a indústria) pode aumentar 1,3% neste ano, somando 18,4 milhões de toneladas, devido aos avanços de 0,8% na área, que deve chegar a 1,23 milhão de hectares, e de 0,5% na produtividade média, a 14,9 toneladas/hectare.

Considerando-se os maiores estados produtores de fécula (Paraná, Mato Grosso do Sul e São Paulo, que corresponderam por 98% do total produzido em 2022), a área de raiz deve superar os 247,5 mil hectares, 9,1% acima do registrado em 2022, e a produção de raízes deve ser 7% maior, em torno de 5,6 milhões de toneladas – dados do IBGE.

Dados preliminares do Cepea apontam que o esmagamento de raiz na indústria de fécula (amido) totaliza 1,8 milhão de toneladas de janeiro até agosto deste ano, 12% acima do observado nos oito primeiros meses de 2022 e o maior para o período desde 2016. Além disso, as boas condições climáticas da temporada 2022/2023 elevaram o rendimento industrial, que subiu 12% na média acumulada (de janeiro a agosto) frente ao mesmo período do ano passado.

Nesse contexto, levantamento do Cepea mostra que a produção de fécula nos oito primeiros meses deste ano está 25,4% maior que a observada no mesmo período de 2022. E essa maior oferta de derivado no mercado não tem sido acompanhada pela demanda. Segundo cálculos do Cepea, o consumo aparente do mercado interno cresceu 21% no acumulado anual, ou seja, em ritmo menor que a produção.

Além do mercado doméstico, as transações de fécula no mercado internacional também diminuíram, após dois anos de recordes em volume e em receita. Neste ano (até agosto), foram embarcadas 16,9 mil toneladas do derivado, volume 43% abaixo do verificado no mesmo período de 2022, segundo dados da Secex.

Assim, a soma do consumo aparente (mercado doméstico) com as exportações vem resultando em volume consumido abaixo da produção, que tem resultado em excedente de produto no mercado, o que, por sua vez, resulta em queda nos preços.

Estudos mostram que a fécula de mandioca é utilizada em mais de mil aplicações; portanto, quaisquer mudanças na atividade econômica têm efeitos sobre o consumo do derivado, em diferentes magnitudes, em cada elo consumidor.

O Relatório Focus do Banco Central do Brasil (Bacen), com base nas projeções do mercado, aponta que o Produto Interno Bruto (PIB) deve ter crescimento de 2,6% neste ano. Porém, desagregando-se os números, tem-se que os componentes ligados ao consumo e à indústria estão em trajetória inversa, ao menos por ora.

Dados do Monitor do PIB da Fundação Getúlio Vargas (FGV) apontam que a atividade econômica avançou apenas 0,2% no segundo trimestre deste ano, com aumento no consumo das famílias, de bens de consumo. Por outro lado, elementos ligados à indústria mostram retração.

Segundo dados de julho da Confederação Nacional da Indústria (CNI), nos últimos 12 meses, houve queda de 6,8% no faturamento real e baixa de 3,4% no uso da capacidade instalada. Como consequência, os estoques de vários dos segmentos estão elevados, limitando o consumo de fécula de mandioca e de outros amidos.

Dados do Cepea apontam que, entre julho e agosto, a quantidade do derivado armazenado em fecularias e modificadoras de amidos cresceu 27,8%, superando em 28% a quantidade estocada em igual período do ano passado. Assim, a pressão sobre as cotações tem se acentuado, e o valor médio nominal da fécula em agosto já registrou queda de 22,3% em 12 meses.

A depender da oferta de matéria-prima, com produtividade industrial maior, estimativas iniciais do Cepea apontam que a produção de fécula em 2023 poderá ser a maior dos últimos cinco anos. Diante disso, após dois anos em patamares nominais elevados, os preços tendem a passar por ajustes, podendo ter efeitos sobre a eficiência econômica das fecularias e riscos quanto às margens. Esse cenário exige avanços na gestão do ponto de vista econômico (variáveis não controláveis) e financeiro (variáveis controláveis pelas firmas).

Fábio Isaías Felipe - Pesquisador do Cepea

Fonte: CEPEA


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