21 de janeiro de 2020 - 04:58

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08/01/2020 16:20

Autoria e performance

Por Luiz Renato de Souza Pinto

 

Daniel Galera é um dos escritores contemporâneos mais interessantes, em minha
opinião. E olha que ainda nem li seu “Mãos de cavalo”, saudado por muitos, dentre os
quais o mestre Luis Antonio de Assis Brasil, que o teve como aluno em seu laboratório
de Escrita Criativa em Porto Alegre. Li inicialmente o “Meia noite e vinte”, quando de
sua vinda a Cuiabá ano passado para o Arte da Palavra. Alguns de meus alunos também
se interessaram pela escrita de Galera, dentre os quais Gleice Araújo que escreveu um
belo texto que incentivei que apresentasse a ele. E foi muito bom.
Daniel voltou a Cuiabá este ano, desta vez a convite do mesmo SESC, mas para
dialogar com Felipe Holloway, vencedor do Prêmio SESC de Literatura 2019 na
categoria romance. Na oportunidade palestrou acerca do Realismo como base para a
escrita literária no atual momento pelo qual passamos. Vale lembrar que a rede SESC
também está sendo sucateada, verdadeiro saque às manifestações diversificadas da
cultura nacional. Assisti a uma das falas, e ao final solicitei que me autografasse seu
“Cordilheira” e também o “Barba ensopada de sangue”, dois outros romances de sua
lavra.
O primeiro foi escrito de encomenda e fala de uma expedição à Argentina em que
uma escritora submete sua narrativa às reflexões intimistas que vão condensando os
blocos de texto que se avolumam à mente do leitor. Nele, uma primeira questão que me
surge fortemente é a de que “Minha mãe foi minha primeira personagem. Ao mesmo
tempo, a leitura dedicada da biblioteca deixada por ela fez despertar meu gosto pela
literatura e, quando eu já tinha uns dezesseis ou dezessete anos, meu interesse pela
escrita” (GALERA, 2008, p. 54).
Acho importante ressaltar como uma família é responsável pela formação do
hábito em cada componente. A escola não pode continuar sendo a primeira fonte de
leitura. É preciso que a família assuma para si esta responsabilidade. Além dela, a
escola, o sindicato, a igreja são locais em que se produzem discursos e, portanto,
espaços de pensamento crítico e apropriação de conhecimento. “Atribuir um propósito
superior a um lance qualquer da vida é construir uma ficção muito pessoal. Dar sentido
ao mundo é um ato criativo. Uma visão de mundo é uma narrativa” (idem, p. 74).
Gosto da maneira com a qual o escritor pressiona o leitor a se apropriar dos
discursos, a firmar seus pontos de vista, a observar o entorno em que vive. Precisamos

trabalhar para que os escritores locais sejam conhecidos por seus contemporâneos, que
sejam portadores de questões sociais, não apenas como ações recreativas, embora essa
vertente também seja importante.
De nada adianta idolatrarmos escritores que vendem muito e que até por isso
produzem (ou reproduzem) discursos que agradam ao “status quo” e deixarmos de lado
os que ao rés do chão nos fazem ver a grandiosidade do cotidiano mascado e cuspido
diuturnamente. “- Se você quer conhecer uma nação, familiarize-se com seus escritores
de segunda linha: somente eles refletem sua verdadeira natureza. Os outros denunciam
ou transfiguram a nulidade de seus compatriotas, e não podem nem irão situar-se à sua
mesma altura. São testemunhas suspeitas” (idem, p. 89).
Admiro a cada livro o processo de criação deste escritor. Penso que há muito a se
descobrir com o registro impresso em cada palavra que Daniel traz à luz. De seu mestre,
autor de inúmeras obras de sucesso e catedrático da escrita criativa no Brasil, saco uma
colocação contumaz acerca da importância desse autor para o momento de nossa
cultura, muito além do registro literário, senão vejamos:

Chegando mais perto de nós, ouçamos Daniel Galera, para quem um dos
pontos capitais do planejamento de uma narrativa é a aquisição de intimidade
com os personagens: “Encontro o livro pensando sobre ele (personagem). É um
processo prévio longo. Primeiro preciso conviver com a história e os
personagens”. Galera toma notas, estabelece o cotidiano dos principais
personagens; em busca de “impressões sensoriais”, visita os lugares nos quais
eles vivem: “Em dado momento, chego a um nível de organização mais
concreto sobre protagonistas, local e época da história. Somente quando tenho
essa imagem bem formada é que decido escrever” (BRASIL, 2019, p. 41).

A obra de Daniel Galera dialoga com a realidade nacional, o lugar do ser humano
em uma cosmologia que não se define por visões holísticas, mas que firmam os pés em
uma construção identitária que vai além de uma simbologia mística, de uma
padronização comportamental, de um monocromático fim de mundo típico do
neopentecostalismo reinante em nações subdesenvolvidas. Cresci (hoje tenho 57 anos)
ouvindo que o Brasil era um país em desenvolvimento. Mas ele não chega nunca. Não
veio com a república (proclamada pelos militares), não veio com o populismo (a Era
Vargas produziu suas contradições), não veio com o nacional-desenvolvimentismo (do
qual Brasília é símbolo de exclusão e concentração de poder e renda), não veio com a
redemocratização.

Olhando para o horizonte dicotômico para o qual fomos jogados, vejo um
universo de reflexões que devem ser cuidadosamente analisadas a partir de vários
lugares de fala. “A idolatria tem a ver com ídolo, que é a imagem ou a representação de
uma divindade. Idolatria é valorizar o ídolo tanto quanto ou até mais que a divindade em
si. Ou seja, o que tá implícito na idolatria não é uma verdade, como no mito, e sim uma
mentira ou uma falsificação. E então esse cara diz que na nossa geração é muito fácil
idolatrar, mas muito difícil valorizar e reconhecer mitos” (Idem, 2012, p. 243).
As massas que se cuidem, pois os salvadores da pátria estão eternamente de
plantão. Surgem de tempos em tempos travestidos de humildade e despretensiosamente
interessados pelo bem comum. Não sei se há uma palavra para definir nosso povo, que
vá além da esperança por melhores dias. Mas me preocupa o conteúdo de algumas
mensagens intradiscursivas que pesco nos romances de Daniel Galera. Afinal de contas,
“Tudo que precisa ser conquistado dá problema depois” (idem, p. 252). Ah, já ia me
esquecendo, Gleice. Ele não só se lembrou do texto que você leu e o presenteou, mas
perguntou de você. Daniel escreve bem, para o jovem, para qualquer um que goste de
ler. Até por isso, não tenha dúvida de que ele vai “pra” galera!

REFERÊNCIAS
BRASIL, Luis Antonio de Assis. Escrever ficção. Um manual de criação literária. São
Paulo: Companhia das Letras, 2019.
GALERA, Daniel. Cordilheira. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
_______________. Barba ensopada de sangue. Companhia das Letras, 2012.


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