06 de junho de 2020 - 00:57

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15/05/2020 23:01 Aquarela de Carlos Pina

História de Mulheres “Boêmicas” e “Turbulentas” nas “Casas de Brinquedos” - Por Gilda Portella

Entrevista com a Historiadora Jhucyrllene Campos dos Santos Rodrigues.

Possui a primeira formação acadêmica em Pedagogia Licenciatura Plena Escolar e Supervisão, Pós-Graduação Latos Sensu em Educação Especial/Inclusão, Alfabetização e Letramento/ Educação Infantil, Libras e Educação Inclusiva pelo Instituto Federal de Educação Ciências e Tecnologia de Mato Grosso. Em sua segunda Graduação foi feita pelo Programa Federal Parfor da Plataforma Paulo Freire-MEC, na Universidade Federal de Mato Grosso com o Curso de História Licenciatura Plena e atualmente conclui o Mestrado pelo Programa de Pós- Graduação em História da Universidade Federal de Mato Grosso, na respectiva linha de pesquisa- O Ensino de História, Patrimônio e Subjetividade, participa do grupo de Pesquisa EPIFAN direcionado a pesquisa afro-americana na fronteira oeste de Mato Grosso.

 

 

1 Como e quando surgiu o interesse pela História das Mulheres no bairro do Porto em Cuiabá ? 

O interesse pelo tema História de mulheres “boêmicas” e “turbulentas” nas “casas de brinquedos” do bairro do Porto em Cuiabá 1860-1888, foi resultado de indagações vivenciadas enquanto acadêmica da UFMT/História – PARFOR de 2014/02, nas respectivas aulas de América Portuguesa e História Regional de Mato Grosso, ministradas pelos professores João Lucídio e Carlos Eduardo; cujos interesses ficaram mais intensos a partir das pesquisas e leituras realizadas junto aos periódicos locais, fontes históricas como obras raras, dissertações e teses com os temas relacionados ao período colonial e imperial brasileiro sobre o contexto regional de Cuiabá, que possuía algum envolvimento de mulheres em atividades ligadas à prostituição.

Seguindo as orientações dos meus professores João Lucídio e Carlos Eduardo, os quais me fizeram ir a campo pesquisar sobre o assunto e, até mesmo, a encontrar registros históricos que comprovam de fato a existência dessas mulheres em Cuiabá, fazendo com que o meu objeto de pesquisa viesse a ter visibilidade na atualidade. Esse contato direto com manuscritos, periódicos e atas administrativas foi realizado no Núcleo de Documentação e Informação Histórica Regional (NDIHR) com sede na Universidade Federal de Mato Grosso, Instituto de Geografia, História e Documentação (IGHD), também na sede da Superintendência do Arquivo Público de Mato Grosso- APMT e na Biblioteca Estadual Estevão de Mendonça em sua ala exclusiva de acervos históricos regionais - ali foram pesquisadas obras de escritores locais que descreviam como era a cidade nessa época.

Casa de brinquedo - seria um sinônimo de “bordeis ou casas de prostituição”, só que a palavra bordel e originaria do século xx então aqui o povo, quando queria se relacionar sexualmente dizia que iria ao brinquedo ou nas casas de brinquedos ou de livre acesso. Por que esse brincar seria o prazer sexual. O termo brinquedos aparece dentro dos relatos policiais, quando faziam o interrogatório das vitimas desses locais. 

2 Como eram vistas e representadas  as mulheres pela historiografia mato-grossense? 

 No decorrer dessa pesquisa em campo, quando eu ainda era aluna de graduação, percebi que os autores que escreviam a História de Mato Grosso não evidenciavam a existência dessas mulheres públicas[1] com os “homens”, mas, de alguma forma, elas estabeleciam certa relação de “amizade, atenção, felicidade, prazer, afetos amorosos e de liberdade” dentro do contexto social urbano da época, quando as relações humanas eram engessadas pelos conceitos religiosos voltados para os “bons costumes”.

A partir dessa indagação e dos apontamentos desse vazio historiográfico, o tema desta pesquisa foi ganhando corpo, ou seja, na medida em que as documentações eram consultadas, analisadas, refletidas e interpretadas, despontavam-se pistas e sinais dessa existência social.

Desta forma, esses conhecimentos foram sendo coletados e mapeados de forma estratégica através dos registros históricos relacionados aos crimes pelos quais elas eram apontadas como testemunhas e envolvidas.

Já no ano de 2016, tive o privilégio de participar do Grupo de pesquisa cientifica PPGHIS- Programa de Pós-Graduação em História do Instituto de Ciências Humanas e Sociais-ICHS “Relação étnico-raciais, gênero do ensino de história” prof.ª Drª Fabiana Macena ofertado pelo Curso de Mestrado e Doutorado que, por sua vez, tem como área de enfoque “história, território e fronteiras”. Os conhecimentos adquiridos e consolidados nessa disciplina, voltadas para história das mulheres e da diversidade de gênero apresentava-se em suas bibliografias, tanto nacional como internacional tais como França, Inglaterra e Estados Unidos, puderam fortalecer ainda mais a minha pesquisa. 

3 Como foi  delimitar o  objeto de pesquisa? Qual  marco temporal e espacial e por quê? Qual o percurso da pesquisa?  

Após a conclusão do curso de História pelo Parfor-UFMT, pude intensificar ainda mais meus estudos em torno da história social das mulheres prostituídas em Cuiabá, mas ainda faltava definir a temporalidade em que ela poderia se situar no século XIX. Conversando com a Prof.ª Dr.ª Elizabeth Madureira Siqueira, fui aconselhada a pegar os anos de 1860 até 1888, por que nesse período de tempo a cidade de Cuiabá estava passando por mudanças estruturais, administrativas e financeiras após a guerra do Paraguai, seguida pela abertura do comercio internacional marítimo e a chegada de investidores estrangeiros e imigrantes no Mato Grosso.

Todas essas mudanças estruturais na cidade poderiam acarretar no aparecimento dessas mulheres prostituídas circulando pelas ruas, becos e avenidas da cidade, oferecendo seus serviços. Essas características foram surgindo ao analisar os documentos oficias do Arquivo Público do Estado de Mato Grosso, Cartório do 6º Oficio, Tribunal das Relações, Secretaria de Governo, quem em seus arquivos direcionados aos processos de crimes de lesão corporal leve e pesada, tentativa de homicídio, homicídio, brigas, embriaguez, turbulências nas ruas, festas ilícitas e jogatinas.

Sendo dúvida esse momento da pesquisa foi muito trabalhoso, porém trouxe um prazer e uma felicidade enormes para minha vida principalmente por reunir todas essas documentações inéditas, consolidando, assim, o nascimento dessa dissertação.

Sendo assim, a pesquisa está inserida na Linha de Pesquisa III: O Ensino de História, Memórias, Patrimônio e Subjetividade do Programa de Pós-Graduação em História, oferecida pela Universidade Federal de Mato Grosso, partindo para uma análise descritiva e historiográfica sobre o modo de vida cotidiano das mulheres populares e pobres da cidade de Cuiabá, que buscavam a liberdade de poderem frequentar locais considerados masculinos com intuito de diversão e lazer, proporcionando uma abertura de reflexão entre passado e presente sobre essas mulheres em busca da liberdade e da autonomia. 

4 Como era o cotidiano dessas mulheres, como viviam, trabalhavam, rezavam e ou divertiam-se? Havia lutas resistências? 

E nessa dissertação o foco central é entorno da História das vidas cotidianas de mulheres populares, sejam elas brancas, estrangeiras, índias, mestiças, negras, escravizadas, alforriadas e livres, que por sua vez eram consideradas como boêmica, turbulentas, vadias e prostitutas, por causa de seu comportamento pessoal e da convivência assídua nos espaços de diversão e lazer, entre bares, tavernas, festas dos brinquedos, do cururu e do siriri, que aconteciam na região da segunda freguesia de D. Pedro II, em Cuiabá, entre os anos de 1860 e 1888.

Reconstruir o viver dessas mulheres, os seus sonhos, as suas lutas, o seu modo de ver a vida e de colocar-se diante dela é ao mesmo tempo sentir como esse passado histórico foi para elas em suas vidas particulares e sociais, ou seja, é tentar enxergar essa essência de viver a vida de forma diferente das demais pessoas, que viviam em um mundo de aparência e de conservadorismo fechado.

Tudo isso fez com que eu olhasse para essas categorias de mulheres autônomas e cheias de vida, como peças integrantes da formação social da cidade de Cuiabá; e suas presenças dentro da historiografia sendo reveladas nesse momento, demonstra a luta e a força para se posicionarem diante do mundo com o direito, que muitas outras pessoas não tinham, de viverem livres. 

 Esclareço que ao se romper essa visão do mundo conservador, muitas delas acabavam se destacando no meio social, de forma independente, emocionalmente e financeiramente da figura masculina.  E essa característica comportamental era presenciada na maneira de sustentar a si e também  de suas famílias, mas, também aparecia de outras formas quando as mesmas gostavam de ir aos bares, tavernas, botequins ou, até mesmo, nos batuques e nas casas de livre acesso ou de brinquedo somente para a prática do prazer e do divertimento de festejar, fazer amizades, reencontrar os amigos, beber suas pingas e dançar.

Entretanto, existiam aquelas mulheres que realmente frequentavam esses espaços sociais com intuito da prática da prostituição, e isso acabava generalizando todas que estavam nesse ambiente social e humilde da cidade, tachando-as como mulheres públicas, vádias e prostitutas, pois nessa região da cidade transitavam vários tipos de pessoas diuturnamente e essas relações de contatos pessoais variavam: conversas entre amigos, patrões e empregados, vendedores e clientes pelas ruas, bares e calçadas onde muitas dessas mulheres públicas estavam em suas atividades normais do dia a dia. Isso as caracteriza como personagens centrais da história local e as contextualiza nos problemas sociais existentes.

Assim, a partir dessa explanação, somos remetidos para as reflexões e categorias conceituais elaboradas por Baudelaire[2], que afirma que “[...] toda cidade em processo de transformação tem heróis e vilões, como os sujeitos do tipo urbano”.

 E esses sujeitos urbanos caracterizaram-se em vários personagens da história local, envolvendo as ruas cuiabanas a partir de suas atitudes e comportamentos humanos, que podem ser vistos através das análises interpretativas das fontes históricas encontradas no NDIHR e também no APMT. 

5 Como é estruturada sua dissertação de mestrado? 

Então, o objetivo do trabalho é o de mostrar a importância social que essas mulheres populares - consideradas prostitutas, vadias, boêmicas e turbulentas - tiveram nesse momento ao quebrar um sistema tradicional e conservador de se viver.

Dessa forma, dividimos em três capítulos o citado trabalho. No primeiro capítulo, procuramos explicar nos diferentes momentos históricos como se formou o território geopolítico da história do Mato Grosso durante o século XVIII, abordando conceitos e compreensões das mudanças espaciais, como a nomenclatura do lugar que, ao passar pelo processo de expansões econômica e social, sofreu modificações.

No segundo capítulo abordamos as mudanças sociais, econômicas e paisagísticas em Cuiabá e na Segunda Freguesia de D. Pedro II no século XIX, perpassando pelo cotidiano do comércio das populações ribeirinhas e na chegada dos imigrantes pelo Porto Geral de Navegação, que correspondia ao Distrito de Pedro II. Também neste capitulo falaremos a questão do tempo do trabalho e do divertimento, que corresponderia com as convivências e proibições. 

No terceiro capitulo, tratamos da vida cotidiana das mulheres nos espaços de divertimento, lazer e proibições dentro da Segunda Freguesia de D. Pedro II, verificando quais eram as relações cotidianas entre homens e mulheres no interior do comércio de vendas, tavernas e botequins. Seguindo mais adiante nos relatos históricos, observando e analisando a documentação historiográfica e identificando quais eram os locais considerados perigosos dentro da Segunda Freguesia de D. Pedro II, e, após essa análise, o trabalho seguiu para a compreensão e a identificação de quais eram as festas populares de famílias e quais eras as festas consideradas batuques, brinquedos do cururu e siriri, que eram consideradas proibidas, pecaminosas e ilícitas, e quais foram os meios legais utilizados pelos seus frequentadores ao querer implantá-las segundo as normas e regras administrativas da cidade. Outro aspecto a ser abordado com destaque neste capitulo seria a desmistificação do que seria o amor ilícito praticado por homens e mulheres na freguesia de D. Pedro II, mostrando, assim, de forma clara, a rotulação preconceituosa da figura feminina sofrida ao frequentar os espaços considerados masculinos, os quais elas frequentavam assiduamente com intuito de diversão e lazer, e não propriamente dito para práticas de prostituição.

Esse trabalho se caracteriza como um estudo descritivo e exploratório dessas vivências sociais ocorridas com homens e mulheres da Segunda Freguesia de D. Pedro II na cidade de Cuiabá entre os anos de 1860 e 1888.

 

[1] Rago, Margareth. Os prazeres da noite e código de sexualidade feminina em São Paulo, 1890-1930. Faz definições em sua obra acerca de quem eram essas mulheres públicas: “Mulheres Públicas que regem a prostituição, código que enredam uma teia social fina “homens de bens”.

[2] BERMAN, Marshall. Baudelaire: o modernismo nas Ruas. In: ______. Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Cia. das Letras, 1986, p. 133.

 

 

 

 


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