01 de dezembro de 2020 - 05:56

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19/10/2020 21:21 Foto: João Almeida

O que pode nos dizer a Arte?

 Dizem que ciência e religião se limitam. Não é verdade. Entre as duas, há um enorme terreno onde sobrevive a Arte. Onde a ciência não ousa pisar, porque é o terreno do sensível, da mera especulação, da intuição ou dos tabus, a Arte pisoteia e faz morada sem medo ou expectativa nesse chão. De outro lado, se a religião recua em tudo que é novidadeiro, efêmero, dissonante ou de vanguarda, a Arte toma esse espaço para si sem nenhuma perturbação.

Talvez a Arte seja um misto de ciência e religião em muitos aspectos, na medida em que lhes é fronteiriça. Não se resumindo em ser fragmento é claro, mas superando uma a uma de forma bastante despreocupada e muito interessada. Por isso, é que a Arte tem tanto a nos dizer em todas as eras.

Nestes tempos tão atípicos de pandemia, não poderia ser diferente. Do que a Arte quer dizer agora, o que mais chama a atenção é que ela vem nos dizendo que algo não está bem. E vem apontando inúmeros sintomas.

Como professor de literatura que sou, é natural puxar a sardinha para a Arte escrita, mas é bem verdade que a Arte em geral e mais popularmente o cinema vem nos alertando faz um bom tempo de que o mundo está à beira do caos.

Filmes como O conto da aia, Jogos vorazes, The walkingdead, Orgulho e preconceito zumbi, Mazerunnere outros tantos livros sobre distopias, zumbis, vampiros, nonsense, apocalipses, apontam que o mundo caminha para novos direcionamentos, novos paradigmas que colocarão a humanidade em outro patamar histórico.

Ora, é claro que é possível listarmos através da História e ano a ano, livros que são publicados com as temáticas acima. Na verdade, o que chama a atenção não é a simples permanência desses temas, mas, como em todos os estilos de época, a persistência e volume com que têm vindo a público. É razoável dizer que nos últimos anos, propriamente na última década, as prateleiras das livrarias e as salas de cinema ou os catálogos das operadoras de vídeo por streaming têm sido inundados por esses temas ou seus correlatos e, acredito, isso é um sintoma.

A Arte tem um tempo e uma verdade paralela a nossa realidade. Assim, depositar nela paradigmas que funcionem como bússola é acertadamente um risco. É realidade, por outro lado, que a Arte continuamente nos oferece indícios das transformações sociais que por acaso ocorrem. Só para ficar nos exemplos mais fáceis, a arte chamada de Vanguarda na Europa prenunciava os tempos difíceis que viriam com as Guerras. O Romantismo com suas fugas da realidade ocorreu em uma época de constantes revoluções em todas as áreas.

A voz emudecida no espaço social é a voz gritante do personagem da Arte, seja um narrador, seja um eu lírico ou imagens difusas que invadem as ruas, as nossas casas, a vista toda. Dar voz a ela é se permitir um caminho a mais para compreender a si mesmo e as transformações que acontecem ou acontecerão na sociedade. Vale lembrar que, como ponto de fuga, a Arte é o espaço também para não se compreender nada, às vezes, só esquecer o que precisa ser redundantemente deixado para trás.

  

Edilson Serra, doutor em Literatura (UFRN) com ênfase em Estudos da Pós-modernidade, é professor efetivo no IFMT e coordenador da área de Linguagens e Códigos.

 

 

 


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