01 de dezembro de 2020 - 06:17

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09/11/2020 17:48

Campanha leva ajuda a mais de mil famílias atingidas pelo fogo em MT

 

 

Em pouco mais de um mês de atuação, o Movimento SOS Filhas do Cerrado e do Pantanal ajudou a amenizar, com a entrega de alimentos, água, máscaras e itens de higiene, a situação emergencial de 1.047 famílias de comunidades indígenas, quilombolas e tradicionais atingidas pelos incêndios e a seca em Mato Grosso.

A campanha de arrecadação e entrega de suprimentos alimentícios, higiênicos, água potável, sementes e ferramentas é articulada pelo Centro Cultural Casa das Pretas com o apoio do Instituto Centro de Vida (ICV) e contabiliza, desde 25 de setembro, a entrega de 1.047 cestas básicas, 1.360 litros de água mineral, 275 máscaras e quase 140 litros de álcool em gel.

A mobilização estava prevista para durar até o dia 30 de novembro, mas deve ser prorrogada em razão dos bons resultados.

“À princípio era uma articulação artístico e cultural para dar visibilidade às mulheres negras e indígenas, mas então vimos essa demanda de ajudar comunidades em situação de risco pela pandemia e pelas queimadas. Nos deparamos com a questão: como promover atividades culturais enquanto as roças e os territórios dessas pessoas estão nessa situação?”, conta Paty Wolf, coordenadora da Casa das Pretas e uma das idealizadoras do projeto.

 

SITUAÇÃO DE EMERGÊNCIA

 

Os incêndios acentuaram a situação de extrema de vulnerabilidade socioeconômica que as comunidades rurais enfrentavam desde abril, com o advento da pandemia do novo coronavírus (Covid-19).

“As pessoas perderam emprego e não podiam vender mais o que produziam nas comunidades, como farinha e outros produtos artesanais, elas iam vender nas feiras, em mercadinhos, nas ruas. Embora não estivessem vendendo, podiam ainda produzir para o próprio consumo”, afirma Deroní Mendes, coordenadora do Programa de Direitos Socioambientais do Instituto Centro de Vida (ICV). “Aí veio o fogo e destruiu essa possibilidade também.”

A campanha ainda deve atender 1.327 famílias distribuídas entre 53 comunidades cadastradas pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas de Mato Grosso (Conaq-MT), a Federação dos Povos Indígenas de Mato Grosso (FEPOIMT) e a Rede de Comunidades Tradicionais do Pantanal.

As organizações realizaram o levantamento das comunidades, número de famílias e as necessidades mais urgentes de cada uma.

O movimento articula o recebimento das doações, logística e ordem das entregas, que varia de acordo com a quantidade dos suprimentos arrecadados. “A gente espera ter no mínimo cem cestas básicas para articular a logística de entregar e atender mais de uma comunidade por viagem”, explica Deroní.

Ao total, foram identificadas 1.456 famílias indígenas, 687 quilombolas e 221 pantaneiras para atendimento emergencial nos dois biomas no estado.

A periodicidade das idas às comunidades depende do fluxo de doações, que podem ser realizadas por dinheiro ou entrega de produtos na sede do ICV em Cuiabá até o fim do mês.

Cada uma das comunidades conta com um ponto focal que recebe e distribui os donativos de forma documentada com as assinaturas das famílias beneficiárias.

PÓS FOGO

O Pantanal é conhecido por sua biodiversidade, que neste ano sofreu efeitos possivelmente irreversíveis.

Dependentes da fauna e flora de seus arredores, as numerosas comunidades humanas rurais do bioma ainda carecem de visibilidade. Por isso também a importância da articulação entre as organizações representativas das comunidades. É o que explica Deroní.

“O movimento foi uma força para unir as comunidades, muitas vezes afastadas e de difícil acesso, para levar as demandas para fora e atrair essa ajuda, que ainda vai ser necessária nos próximos meses”, diz.

O agricultor familiar e pescador Edson Dias do Nascimento perdeu, além do roçado, as duas vacas que possuía.

Hoje comemora as primeiras chuvas na comunidade Acorizal de Barão do Melgaço e uma das que recebeu o apoio da campanha. “Mas ainda falta chuva pra gente plantar, o que a gente perdeu não recupera mais”, comenta.

O início do período chuvoso em outubro ajudou a apagar o fogo, mas levou a fuligem contaminante aos córregos que não secaram no período da estiagem, um dos mais fortes dos últimos anos no bioma.

De acordo com Eliane Xunakalo, assessora da FEPOIMT, a água potável é uma demanda urgente entre os povos indígenas. “Essas primeiras chuvas levam as cinzas para a água e até que os rios se limpem, vai precisar de bem mais”, explica.

A situação crítica é estendida ao Cerrado: lideranças da Terra Indígena Tadarimana, localizada no município de Rondonópolis, relataram durante uma entrega de doações a mortandade dos peixes nos córregos.

Mesmo com a intensificação das chuvas das próximas semanas, os efeitos dos incêndios devem perdurar.

 

RECONSTRUÇÃO LENTA

As populações atingidas relatam a necessidade de mudas, sementes, ferramentas para a reconstrução dos meios de vida.

O período chuvoso e a pandemia ainda acentuam a dificuldade no deslocamento entre as cidades e as comunidades, em geral afastadas dos centros urbanos.

“A questão não termina com as cestas básicas, ainda tem outros meses e outros momentos onde há a necessidade. A devastação continua e ainda temos muitas demandas”, diz Cláudia Pinho, representante da Rede de Comunidades Tradicionais Pantaneiras.

Nas aldeias indígenas, Eliane explica que a destruição do roçado, das plantas medicinais e das palhas utilizadas na confecção das moradias de alguns povos indígenas será superada em um processo lento.

O buriti, por exemplo, deve ainda demorar dois anos para crescer e para suas palhas servirem na confecção das moradias de determinados povos, que agora precisam substituir o artefato por lonas.

Um deles é a etnia bororo da TI Tereza Cristina, uma das três terras indígenas localizadas na porção mato-grossense do Pantanal e de onde alguns anciões, mulheres e crianças chegaram a ser evacuados com o avanço do fogo.

“Foi uma sinergia de impactos sobre a gente”, conta Estêvão Bororo, representante da Associação TugoBaigare e morador da aldeia Córrego Grande, de onde cerca de 50 moradores tiveram de sair de suas casas com a proximidade do fogo e também onde um ancião foi vitimado pela Covid-19.

Agora, afirma o indígena, as famílias sentem os efeitos psicológicos somados aos impactos da destruição da fauna e flora.

Estêvão explica que, além do afugentamento dos animais para outras áreas e a resultante escassez da caça, a perda da vegetação nativa impede o extrativismo praticado tradicionalmente pelas famílias, importante por motivos que excedem a segurança alimentar sob risco.

“Está integrado o olhar territorial, o processo holístico e tradições orais. São as mães que levam os jovens para as matas, há o ensinamento de manusear e conhecer os frutos, o que tá envolvido na área do ponto de vista do sagrado também”, diz.

O Movimento SOS Filhas do Cerrado e do Pantanal planeja realizar o levantamento das comunidades e famílias interessadas em assessoria técnica para apoiar ações de reflorestamento e reconstrução de hortas e roças. A ideia é mapear o número de famílias interessadas e o total de área por comunidade, identificando a quantidade de hectares para apoio nos plantios.

“Tá tudo morto. Viver não vai mais, né? Tem que esperar chover para nascer outros tipos de erva e de mato. Agora tá tudo seco. Não tem mais nada verde. Tudo seco, tudo morto”, repete Benedita Taques, uma das beneficiárias da ação, em minidocumentário produzido pelo ICV

As mulheres do movimento ressaltam a importância da campanha como resultante da articulação, união e apoio entre os três grupos rurais das áreas atingidas – quilombolas, pantaneiras e indígenas, mas que medidas em outras estâncias devem ser tomadas para apoio às populações.

“Quando nos unimos enquanto sociedade civil para arrecadação, estamos trabalhando num apoio emergencial, mas entendemos que precisa de políticas públicas para atender de maneira efetiva essas comunidades”, avalia Paty.

Eliane afirma que existe a necessidade de um planejamento para a época da seca nos biomas de Mato Grosso – Pantanal, Cerrado e Amazônia – nos próximos anos.

“Foi um fogo fora do normal e não queremos que vire regra. Os biomas são atacados e os seus habitantes sofrem com essas ameaças. São nossa casa e da nossa casa a gente cuida bem. A fauna e a flora estão interligadas com os povos”.

 


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