07 de maio de 2021 - 04:22

Educação

21/10/2020 23:11

Filósofo e Crítico de Arte Poética - Dionísio BAHULE em evento da UFMT

 

 

Dionísio BAHULE, filósofo e critico de arte poética, moçambicano fará a abertura da  XIV Jornada Desigualdades Raciais na Educação Brasileira com a poética na IV Cultura Preta- Ações Afirmativas de Cultura da UFMT. O evento, gratuito, que teve 1898 inscrições acontecerá 25 à 28 de Outubro de 2020. A participação de BAHULE  será  no dia 26  às 8h 30.

Veja a  entrevista  desse intelectual moçambicano, de uma perspectiva estética impar onde se articulam as questões das riquezas culturais  africanas, das tradições, da religiosidade  e da história que é partilhada coletivamente pelos "olhar de um africano". Segue a conversa com a artista visual e textual Gilda Portella para o site Megapop. È um convite  a ouvir, a sentir, a olhar lentamente a narrativa de BAHULE. Permita que sua essência seja tocada, pelas palavras que pulsam sensibilidade  e voz própria. Mergulhe na escrita vivida que ora  sangra ou esta sepultada, mas é repleta de sagrados e possibilidades. Encanta-se. Bahule  desafia-se e nos oferece essa bela rede de memórias.     

 

1) Para a gente começar esse nosso diálogo gostaria que você fizesse um breve resumo sobre o Dionísio BAHULE. De onde ele vem? Do que gosta? O que te movimenta hoje? 

Resposta: Sou de uma região ao Sul de Moçambique  - Chidenguele. Meu pai, um excelente Ginecologista que se deu aos outros até aos seus últimos dias de vida, só na transição para a minha segunda infância conseguiu se fixar na cidade da Maxixe, Inhambane; primeiro, num pequeno bairro com resquícios de uma burguesia tardia; tenho ainda essa imagem presente; de um bairro agitado na encosta da capital económica de Inhambane. Com o motor da modernidade a rugir continuamente na ruela que dividia a nossa casa de outras. Filippo Marinetti em alguns pontos do seu manifesto  tinha razão; a electricidade era fascínio e privilegio para poucos. E nós, éramos o muito que não usufruia deste encanto, mas o perigo da infância com todos seus segredos – passei neste lugar. Aprendi aqui o amor com as plantas – meu pai – um compulsivo apreciador do verde – sinto-o ainda hoje em cada canto da minha casa. Foi-se em Agosto do ano passado sem antes fumar com ele o tabaco dentro do Cachimbo. É tudo isso que me prende. Essa doce lembrança da minha mãe ajudando nos trabalhos da Escola. E hoje, gosto de ter comigo essas lembranças todas. E acredita – isso move muito a minha escrita; esses pequenos nadas que contaminam o meu processo criativo. A minha poesia; a minha narrativa; as canções que escrevo para a Banda – têm muito desses nadas. E ainda continuo acreditando nessa arte que nos força a revisitar as frescas sensações da existência. Por isso – digo e volto a dizer: a poesia para mim é uma tortura; ela me invade; me padece; me sangra; porque a existência me atropela continuadamente; me dilui em farpas verbas. E isso dói! Um dia –um amigo leu Rasura PATOLÓGICA  - uma pequena colecção de textos meus. Depois, cravou seus olhos num insubmisso olhar e disse: a sua escrita dói. É verdade – ela me faz padecer. Eu choro toda vez que escrevo poesia. E hoje, dentre muitas coisas que me movem – é a crítica; pensá-la tão-ela. Esse exercício parasita –que para mim – ela está obsoleta. Já teve seus tempos de glória, mas hoje, está calamitosa.

2) Quando surgiu o seu interesse pela literatura enquanto leitor? Quais autores e ou livros marcaram sua formação de ensaísta e critico de arte.

Resposta: Eu conto sempre essa história. Tão real. Meu pai era grande leitor. Um grande pesquisador na sua área. E parte de seus compêndios deixava-os numa caixa em nosso quarto. E era um tempo em que o papel higiênico era para uma certa classe privilegiada e, nós  - pertencíamos a esses muitos que limpavam o ânus com papel de livros e/ou cadernos. E eu agradeço essa parte. Porque foi por meio dela que comecei a ter o contacto com o facto verbal. E numa dessas finais-de-tarde rasguei mais uma página do compêndio de Obstetrícia e segui para o ritual fecal. Enquanto aguardava a saída das fezes – eu ia apreciando aquele pedaço de papel preso em minhas mãos. A informação que lá estava era boa que não consegui usar. Dobrei. Levantei-me. Dei a volta à Latrina e comecei a rastejar para limpar o resto das fezes no chão. Depois daquele dia; aquele em que não consegui usar pedaço de papel para limpar as minhas fezes – comecei a olhar o livro com outra sensibilidade. Depois fui ao Seminário  - e lá tive outras experiências com o livro e com a limpidez do humano. Mas no ensino Pré-universitário – conheci um Professor a quem devo muito a minha paixão pela Literatura e pela Crítica  - o Professor Cristóvão Seneta. Ele é e, ainda hoje continua sendo um daqueles sujeitos com uma inteligência que, para além de encantar, puxa. E foi isso que aconteceu. Travamos laços não apenas de aluno-professor, mas de irmandade. Naquela mesma altura, coincidentemente, meu pai sofre um processo disciplinar e é transferido para o interior; tão distante de nós; (mas que pecado? Eu sempre me interrogava. E um dia quando ia fechar o livro que publiquei no ano passado – liguei para ele e questionei: pai, o que aconteceu? Chorou copiosamente. E na altura estava a asfixiar a fumaça do Cachimbo em pleno Março. Apenas ajudei um doente que estava à caminho do abismo, disse. Imagino que na altura em que disse isso estivesse sentado. Porque eu hesitei colocar o pé na 24 de Julho depois que continuou a história toda; ficou uma mãe com seis filhos; numa cidade; onde tudo se deve comprar. Foi trágico. Dormíamos muitas vezes sem comer. Meus irmãos que eram mais novos – choravam de fome. Esse imagem toda – me faz chorar até hoje. E de lá – regressou para morrer nas mãos da sua esposa. E mais uma vez – uma mãe com seis filhos; sozinha. Alguém um dia disse que eu estava traumatizado. Talvez. Não importa agora saber se o meu caso é para a Psiquiatria. Verdade! Não consigo superar aquilo tudo. Foi nevrálgico. E Seneta, ele começou a pagar a mensalidade da minha Escola. E Gregário Dos Costumes  - um outro amigo-irmão  - ajudou nas despesas de casa. E tudo isso - deu-me mais força para ler. Na Universidade  - comecei a ganhar fascínio pela Crítica.  Isso me atropelou. Eu não queria seguir Filosofia. Ou era Medicina ou Serviços de Inteligência. Isso era meu fascínio. Mas não foi possível; caí na Filosofia. Na altura, os Departamentos de Filosofia e de Português lutavam para me ter. Passei quase a pertencer aos dois. E isso deu-me espaço para ter acesso à outras leituras. Mas Maurice Blanchot - esse sim – foi meu primeiro fascínio. Depois vieram outros. Fui conversando com R. Barthes, J. Rancière, T. Eagleton,  P. Bürger. E hoje, sigo com outros tantos nomes como Francisco Noa (que depois de lê-lo tanto, comecei a questioná-lo), Ana M. Leite, Pires Laranjeira, Russel G. Hamilton, Augusto Ponzio, Harold Bloom, GertudeStein, Tzvetan Todorov, Bakhtin com todo seu Círculo. É tanto nome.

 

3) E quando você se descobriu escritor e critico de Arte? Foi um processo natural para você? O que move a sua escrita? Qual sua relação com a escrita.

Resposta: A situação concreta; a existência; essas coisas forçaram-me a escrever como uma maneira de chorar. De emergir ao vivido. E quando experienciei o acto de escrever como realização do ser – comecei a procurar perceber as manobras do objecto que me prendia; o que era isto de escrever? Essa coisa de Literatura  - como é que se manifesta? Já no Ensino Pré-Universitário – participava de alguns círculos de debate sobre essa coisa de processos artísticos. Acredito ser nesses lugares que tudo começou, mas a necessidade de querer conhecer o objecto da minha prisão – foi importante para chegar ao lugar de Crítico. E tudo isso foi me ajudando a depurar a palavra; a tomá-la como um Cemitério que guarda o que de mais único tivemos; daí – a minha recusa em publicar um livro de Poesia premiado pelo Banco de Moçambique em 2012.Eu acreditava e, ainda hoje continuo pensando nisso – a escrita só é possível quando encontramo-la uma voz própria; quando o processo de criatividade vem com a originalidade do repertório linguístico nosso. Isso é possível quando desafiamos o nosso ser; quando digo desafiar o nosso ser – digo: mergulhar a circunstância possível da vida. Aqui mora a minha escrita. E a minha relação com a escrita passa primeiro por conhecer a língua como sistema; seus segredos e suas possibilidades predicativas. É nisso que me faz acreditar na Francine Prose ao lembrar um amigo que a disse que escrever é um pouco como convidar alguém a vir a nossa casa. E é mesmo isso – casa como ethos – esse nosso lugar de demora, de permanência; essa nossa interioridade. Infelizmente – temos muitas vozes sem preparo, mas nesta cacofonia – temos  boas excepções com rigor estético bem apurado. Depois da língua – gosto sentir tudo. Houve tempos em que tinha parado de ler Poesia, por exemplo. Tinha essa obsessão de querer encontrar meu repertório próprio; essa ferrovia só minha; essas coisas que ressoam meu mundo; e isso acontece também no meu exercício crítico.

 

4) No trabalho  “A insossegável tarefa de pensar o pós-independência”. Como essa questão atravessa suas produções e sua vida? O que você pode me contar sobre a construção desse trabalho textual? 

Resposta: Particularmente, na crítica  - discuto muito isso. Há aquilo que na crítica chamo por Estética Poetológica Epistémico-Existencial na novíssima engenharia dos processos criativos da Arte em Moçambique. Um processo que se anula das preocupações identitárias e de pertença a um xadrez territorial. A primeira geração de críticos (Rui Knopfli, Ana M. Leite, Orlando Mendes que vai e arrasta outros nomes depois da criação da AEMO e da Geração Charrua) – teve sua produção numa temática bifurcada entre a questão da legitimidade  de uma Literatura Moçambicana como sistema e a especificidade dela em termos identitários. A segunda – circunscrita na academia – vai dar continuidade ao elemento identitário perdendo de vista a nova geração de artistas que deixa de lado essas preocupações. Na verdade, é pela insuficiência em traduzir a linguagem desta geração que enferma a crítica na actualidade. Porém, a Insossegável Tarefa de Pensar o Pós-independência surge das inúmeras conversas que fui tendo com a Obra da Paulina CHIZIANE e com os fragmentos da sua vida. Paulina CHIZIANE é um ser de muitas águas; que prova a loucura e a rejeição da família; que entra na escrita com uma proposta estética própria e os meios literários de então, maioritariamente masculina ecom mulheres todas mestiças–a rejeitaram e chamaram a sua chegada por ASSALTO À INSTITUIÇÃO LITERÁRIA (1): pela proposta estética que dava um passo de volta ao ser próprio da alma africana e (2): por ela ser negra de pele preta. Partilhei tudo isso entre leituras e conversas. Em 2018, ela me tira de uma casa em que estava  arrendando e me dá um tecto em sua casa pedindo que eu use o meu dinheiro para comprar um espaço e construir; nisso ela disse o seguinte: filho, tu és muito bom, mas ninguém te vai respeitar enquanto não tiveres o teu canto. Isso foi profundo: por isso digo sempre: eu devo à Paulina CHIZIANE o muito que hoje sou. E nesse quase um ano e meio no seu território –aprendi muito. Ela abriu-se para mim. Falou de tudo. Aliás  - ofereceu-me sua vida. E foi nisso que eu escrevi aquele texto como forma de introduzir a Paulina CHIZIANE para o leitor. Uma Paulina que muitos não conhecem. E hoje, devo a ela uma Biografia. E ela pediu que a escrevesse no estilo da INSOSSEGÁVEL TAREFA DE PENSAR O PÓS-INDEPENDÊNCIA.

 

 

 


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